Lá pelas tantas de conversa ela me pergunta se não gostaria de fazer o Caminho. Não precisou mais nada: cheguei me casa, fui para a internet e passei a noite toda lendo, vendo, me informando sobre esta viagem da qual eu sempre ouvi falar e sempre ficava lá no fundo dos pensamentos a pergunta "será que eu conseguiria?", mas sem nunca ter de fato pensado em arrumar a mochila e partir.
Praticamente 800 kms a pé, enfrentando sol e chuva, frio e calor, e enfrentando a si mesmo durante a caminhada solitária, o que talvez fosse o mais difícil.
Bem, a chance de colocar à prova estava bem diante do meu nariz! O plano era ir em maio, o que me daria 5 meses pela frente para eu me familiarizar e me preparar. Nesta fase de preparação veio o que poderia ser o fim de uma viagem que nem havia começado: fortes dores no joelho (que eu já havia operado) devido às caminhadas que eu fazia para ganhar resistência. Meu ortopedista foi categórico: não vai. Mas... como não ir? De alguma maneira eu já estava lá! Minha cabeça estava lá, meu coração estava lá... Com medo das consequências físicas (que depois da viagem se mostraram sem fundamento, mas já era tarde) optei, desta vez com dor no coração, por fazer apenas parte dele, o que resultou em praticamente 380 kms e duas semanas de caminhadas diárias.
Preparar a mochila foi outro exercício: somente o essencial, nenhum supérfluo. A vaidade teve que ficar em casa. Entre roupas, calçado, meias, toalhas, produtos de higiene e outros, a minha pesou 7 kgs - contando com o peso da própria mochila.
Um ítem que causa controvérsias entre peregrinos é o calçado apropriado. Bota ou tênis? Eu optei por uma bota, Salomon, a qual tenho até hoje em perfeito estado e que já me acompanhou em muitas outras viagens por aí. Acho melhor que o tênis, pois protege o tornozelo em caso de torção devido às muitas pedras no caminho, por ser impermeável (também tem chuva!) e por aguentar melhor o tranco nas muitas subidas e descidas por terrenos acidentados.
Assim, com a mochila pronta e bota amaciada (importante!), em maio, como planejado, eu partia para minha primeira viagem à Europa, sozinha. Iria encontrar minha amiga em um ponto do Caminho e de lá ela continuaria e eu começaria essa inesquecível e emocionante viagem.
Cheguei em Madri, peguei um trem, e 4 horas depois desembarcava em uma cidade sem sequer saber para que lado ir. Precisava chegar ao albergue que ficava em um convento e não fazia idéia onde era. Fui andando meio sem rumo quando encontrei um casal de peregrinos franceses (é fácil identificar...). Parei e perguntei. Eles, amigavelmente, me levaram até a porta! Deixei minha mochila e saí para conhecer a Catedral, que tem os vitrais mais belos de todas as igrejas da Europa. Ainda nem sinal da minha amiga, mas eis que quando entro em uma rua, com quem dou de cara? Pois é...
À noite, após um banho gelado e uma benção especial das irmãs beneditinas aos peregrinos (o Caminho tem isso: o sagrado e o profano andam lado a lado), desmaiei na cama até o dia seguinte ansiosa pelo primeiro dia de caminhada. Café da manhã no albergue, mochila nas costas, pés protegidos e lá vamos nós, em um dia ensolarado e quente, por aproximadamente 20 kms até a próxima parada, onde dormiríamos.
Tínhamos combinado um roteiro pré-determinado e sabíamos de antemão onde passaríamos a noite, assim começávamos o dia caminhando juntas mas invariavelmente acabávamos nos separando, pois cada um tem seu ritmo e tentar acompanhar o outro é cansativo, seja andando mais rápido ou mais devagar. Assim é na vida também. Primeiro aprendizado.
Vou dividir esta experiência em alguns posts para não virar um livro... Mas de acordo com minha disponibilidade de tempo, portanto, até o próximo qualquer dia destes!
A vieira, um dos símbolos do Caminho. A minha, que esteve pendurada na minha mochila durante todo o trajeto, está em lugar de destaque na minha casa.
As famosas 'setas amarelas', outro símbolo, que estão nos locais mais inusitados e nos indicam o caminho a seguir em caso de dúvida. Às vezes são difíceis de achar...
